quarta-feira, 15 de junho de 2016

Stefanie Chaves do Amarante Webery

No dia 30 de Janeiro de 1999, eu era supervisor de pedágio, na empresa Univias, na praça de Viamão, por volta de 6h ao chegar em casa, minha esposa estava com muitas dores, embarcamos no pequeno Fiat 147 e rumamos para o hospital da PUC, na Av. Ipiranga em POA. Após ser atendida, nos mandaram para casa pois não tinha dilatação suficiente para entrar em trabalho de parto. 
Ao retornarmos, tive de sair em direção ao centro de Porto Alegre, entrar na primeira a esquerda e entrar no outro lado da Av Ipiranga, quando num gesto estúpido, avancei o sinal vermelho, sendo colhido por um passat que vinha atravessando a avenida Ipiranga com a Salvador França. o Choque foi no lado da Mari. Fomos arrastados, sendo parados por um enorme poste de concreto, evitando assim, cair dentro do rio Ipiranga.
Fomos socorridos por alguém que passava por ali (não sei quem é, que Deus abençoe essa pessoa que nos levou até o hospital da PUC). 
Liguei para meu irmão, Daniel, que foi para o hospital acompanhar a Mari, enquanto tive de ir com a policia no HPS, para fazer corpo de delito, com o outro senhor que colidiu conosco.
Feito isso, liguei para o hospital da PUC, e me informaram que ela passava bem e que tinha sido liberada. Que fora para casa. Não havia celular naquela época. Não havia messenger, whats, etc. 
Peguei um ônibus e fui até nossa residencia em Viamão. Tinhamos nossa filha, Fernanda, com 7 anos, que estava em casa com uma tia, a Rute. Que tristeza ao chegar em casa e não ver a Mari. Elas me perguntam como a Mari estava. Respondi, prudentemente que estava bem, que ficara no hospital e que eu viera buscar suas roupas. Sem carro. A pé. Corri para a faixa pegar outro ônibus e voltar para o hospital da PUC.
Ao chegar la, encontrei-a sentada num banco no pátio do hospital com muita dor, pois tinha fraturado duas costelas. Estava acompanhada pelo meu irmão. 
Levamos ela para o hospital Moinhos de Vento, na Ramiro Barcelos. Não pode internar porque nao era conveniada pelo plano de saúde que eu tinha. Fomos para o hospital mãe de Deus. (dai saiu uma frase que a Mari costumava dizer para a Stefanie: "filha você é rica. Você nasceu no hospital mãe de Deus. Rico. Rico. Rico."
Lá foi internada. Passava de 12h. Pedi que fizessem uma xxxxx. Relatei o que tinha acontecido. Fizeram rapidamente o exame e constataram que o bebê estava com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Disseram-me que era necessário fazer uma cesariana. Hoje, entendo que ela ja deveria estar enrolada antes do acidente.
Dai foi só alegria. Fui gentilmente convidado a acompanhar o parto. Fiquei o tempo inteiro segurando a mão da Mari. Quando tiraram aquela coisinha pequenininha, toda roxinha, enrugado, cheia de sangue, limparam-na e me deram para dar o primeiro banho nela.
Começamos a criar aquela doce criaturinha. Teve mais dois irmãos. O Paulo Gabriel. Depois a Ester.


Com Fernanda - irmã

Com Paulo Gabiel - irmão

Com Ester - irmã

Em 2011, nos mudamos para Florianópolis. Na Cachoeira do Bom Jesus. Lugar lindo. Maravilhoso. Passamos 3 anos. De todos nós, quem menos se adaptou foi a Stefanie. Sentia muita falta da Fernanda. E tinha aquele sonho de fazer o aniversario de 15 anos em Passo Fundo.
Não conseguia fazer muitas amizades.
Abaixo formatura do ensino fundamental. 2013.




No início de 2014, ao iniciar o Ensino Médio, não conseguimos vaga em escola próxima. Só a noite, em uma escola distante uns 10km, no bairro Santo Antonio.
Começaram os vômitos. Enjôos. Frequentemente nos ligavam da escola que ela estava passando mal. Íamos buscá-la. Logo passava e ficava bem. Não pensamos que fosse nada grave.
Em 2014, retornamos para Passo Fundo. Ficamos um tempo em Porto Alegre, depois em Flores da Cunha. Os enjoos continuaram. Vômitos. Se queixava que uma vista estava ficando fraca. Íamos ao medico davam um remedinho, melhorava.
Voltamos para Passo Fundo. Começou a piorar.
Até que sua vó e seu bisavô, acharam que deveríamos levá-la para consultar com um neurologista. Foi levada ao Dr. Nerio Azambuja, na hora detectou um tumor no meio do cérebro, confirmado pelos exames no hospital São Vicente de Paulo, em Passo Fundo.
Já de cara, disse que era inoperável. As dores e os vômitos eram causados devido ao fato de o tumor ter bloqueado o líquido do cérebro em quatro partes.
Foi feito uma cirurgia e drenado o líquido.

Após essa cirurgia ela ficou bem. Sem dores. Sem vômitos. Voltou a estudar. Seus colegas professores da Escola Adelino Simões, 2º ano, foram muito legais. Ajudaram muito ela, que conseguiu concluir o 2º ano.
Vi no laudo médico que o nome do tumor era chamado de Astrocitoma Difuso Grau II da OMS. Fui pesquisar na internet e descobri que esse câncer, apesar de benigno, não respondia bem a tratamento como radio e quimio.
Tentamos a porcaria da fosfoetanolamina. Um tempo depois conseguimos comprar por conta própria uma que vinha de Miami nos Estados Unidos. 
Eu sempre a buscava na escola. Um dia deixei que viesse de ônibus. Fiz o almoço. Sua mãe estava trabalhando. Seus irmãos estavam todos em casa. Quando ela chegou da escola a mesa estava pronta. Sentou-se feliz para comer. Quando voltou a sentir ânsia de vômito. Foi ao banheiro e começou a orar baixinho. Voltou para a mesa. Começou a olhar de um jeito estranho para nós. Começou a se contorcer de uma horrível e caiu convulsionando no chão. Foi um desespero muito grande. Achei que estava morrendo. Conseguimos colocá-la no carro. Corri para o hospital. Foi atendida e medicada.

Iniciou-se um tratamento com depakene (anticonvulsivo). 
Fomos passar fim de ano em porto alegre, com familiares. Olha a alegria dela:
Começaram as radios. 30 sessões. Íamos todos os dias de segunda a sexta. Ela ia bem feliz. Sempre quando perguntávamos como estava dizia: "Estou bem." Nunca se queixava. Sabíamos que não falava quando estava com dor. Pois não queria ir para o hospital.

Um dia seu cabelo embolou todo e não deu para arrumar. Foi preciso cortar seu lindo cabelo. Sua tristeza ela nunca deixava transparecer. Sempre sorrindo.



As radioterapias terminaram em dezembro de 2015.
Em janeiro de 2016, o cabelo começou a cair. Decidimos que iríamos rapar a cabeça dela. 
Sua tia, Rute, que tanto a amava, decidiu que iria pagar o corte dela, rapar sua cabeça e dar uns lencinhos para ela.
Rapamos a cabeça, eu, ela, sua tia, e o |Gabriel, seu irmão.


Tia Rute

Como o líquido voltou a ser bloqueado no cérebro, foi decido colocar uma válvula em sua cabeça, drenando o líquido para o estômago.
Disseram que o organismo poderia rejeitar a válvula e criar um cisto em volta dela, causando dor. 
Algum tempo depois ela começou a sentir dor no estomago. Levamos ao hospital, descobriram que estava com pedra na vesícula. Não quiseram opera-la, devido a operação anterior ser muito recente, Medicaram e mandaram-na para casa. As dores continuaram. Levamos para hospital maios uma vez. De novo medicaram e mandaram para casa.  
As dores voltaram mais forte. Levamos ao hospital de novo. Desta vez foi operada e retirado a vesícula.

Começamos as seções de quimioterapia. Foram feitas 3. Uma por semana. Na quarta semana, os exames mostraram que o rim estava extremamente atacado pela quimio. Decidiram não fazer naquele dia.

Na outra semana teve complicação na válvula e precisou ser internada novamente.
Após passarmos uma noite com ela na cti da emergência, pela manha ao ser levada para cirurgia, no elevador, na maca, segurávamos suas mas, quando ela nos disse que estava com medo. 
"vai ficar tudo bem, filhinha, estamos contigo e Jesus também."
A válvula entupira porque o tumor avançara. Como havia risco de sangramento, não quiseram tirar. Colocaram outra válvula do outro lado da cabeça.
Foi feita outra sessão de quimio, durante sua recuperação. Depois foi feita outra tomografia computadorizada.
Como o tumor continuava crescendo, os médicos decidiram capitular. Interromper o tratamento. 
Disseram para nos preparamos para o pior. Levar para casa. Dar bastante carinho. Não havia mais o que fazer.
Trouxemos ela para casa. Falava pouco. Sempre dizia que estava bem. Nunca aceitamos que ela iria morrer. Acreditamos no milagre até o fim.
Um dia parou de se alimentar. Levamos novamente ao hospital. Foi baixada. Puseram uma sonda para alimentá-la.
Alguns dias depois teve alta e veio para casa com a sonda. Voltou a se alimentar. Melhorou um pouco. 
Com o lado direito praticamente todo parado. Não enxergava mais com a vista direita. Não conseguia pegar nada com sua mão direita. Caminhava com muita dificuldade. Precisava de ajuda para tudo.
A voz começou a enrolar.
A dor crescia.
Começou a piorar. Por duas ou três noites dormimos com ela sentados na cama. Evitávamos de levá-la ao hospital novamente. Mas não teve jeito.
No dia 17 de Maio, levamos ela mal. Em coma. Foi internada. Colocaram auxilio para respirar. 
Morfina. 
Ai veio a noticia que não queríamos ouvir. É o fim. Desta vez não volta para casa. Vamos cuidar para que ela não tenha dor. 
Não voltou mais. Durante 25 dias, não arredamos o pé da volta dela. 
Sua mãe, minha querida esposa. Uma guerreira. Lutou com todas as forças. Chorou. Pediu a Deus. Implorou. Conseguiu segura-la um pouco mais.
Fiz uma oração em seu ouvido. Falei com ela. Disse: "filhinha, se Jesus está te chamando pode ir. Papai vai cuidar de tua mãe e de teus irmãos. Um dia nos reencontraremos. Vou sentir muito tua falta. Mas se tens que ir vai em paz, meu amor! Entretanto se Jesus não quiser te levar, Ele vai fazer um milagre e te devolver para nós".
Alguns dias depois ela começou a abrir os olhos. Mas era um olhar perdido. Vago. Falávamos com ela. As vezes tentava virar a cabeça procurando a voz.
Sua mãe sonhou que ela estava bem. Que estávamos todos juntos conversando.
Não queríamos deixar ninguém ficar com ela, embora muitos parentes se ofereciam para passar a noite com ela para descansarmos. Mas como descansar? Durante esses 25 dias apenas uma noite. Na última semana, deixamos a tia Marta passar a noite com ela.
No dia 11/06/2016, sábado, passei o dia me sentindo mal, não entendi. Dormi. Domingo dia dos namorados. A Mari com a Stefanie no hospital, eu em casa dormi até umas 5 da tarde. Não fui no hospital. Fui buscar a Ester na casa da Marta. Jantamos lá. Na volta passei no hospital. A respiração da Stefanie estava muito pesada. Peito arfava. Voltei para casa. Dez e tanto da noite. Fiquei mexendo no computador.
23:30, Mari liga. Atendi o telefone. Escutei seu choro, dizendo que a Stefanie tinha se ido. Embarquei no carro. Corri para o hospital, quase enfartando no caminho. Cheguei la, Mari em desespero. Cheguei até a cama, encontrei-a quente ainda. Sem vida sobre o leito. Feição linda. Serena. Tive vontade de fotografar. mas achei que não devia. Como guardar uma foto dela sem vida? Em prantos comecei a ligar e postar na internet avisando que nossa amada guerreira acabara de partir.
Está com o Senhor. Nossa guerreira encerrou sua carreira aqui. Doce. Meiga. Linda. Faltam adjetivos.
A dor é grande. 
O velório foi concorrido. Muita, muita gente. De 8h da manhã, até 5h da tarde, umas 500 pessoas estiveram se despedindo dela.
As melhores palavras que recebi neste momento, as que calaram mais fundo, não foram as clássicas:

"Deus precisava dela!"
"Descansou!"
"Não está sofrendo mais!"

E aquela que tudo explica, mas não se entende nada:
"Deus sabe TODAS  as coisas!"

A que mais me confortou foram as palavras não ditas. O silêncio e aquele abraço carinhoso. "FORÇA!"
"Que Deus console o coração de vocês!"

Essas foram as melhores!

Cantei: 
Quando o jordão passarmos unidos
E entrarmos no céu veremos lá 
Como a areia da praia os remidos
Óh que gloriosa vista será

Tantos como a areia da praia
Tantos como a areia do mar
Que gozo sentira todo o salvo pois verá
Sim tantos como a areia da praia...

Hino 509 da harpa cristã

E,

Um que sempre cantava com ela:

Ja na alva luz
De um dia raiar
Lá estava a cena
Que me impressionou
Um anjo preso a Jacó
Que por sus benção lutou 
E jamais desistiu

Não largava o anjo...


Às 17 horas foi sepultada num jazigo de nosso patriarca, Adão Chaves, no cemitério Santo Antonio, próximo ao bairro São Luiz Gonzaga, nossa querida Stefanie, Seu corpinho pálido, gélido, sem vida, dentro de um caixão de madeira. Ficamos em silêncio a ver o coveiro, selando o jazigo, colocando tijolo por tijolo. Massa. Cada tijolo aumentava a nossa distância dela.